O líder necessário na era da dispersão cognitiva

Vivemos em um supermercado metavérsico em que o produto mais cobiçado, vigiado e manipulado é nossa atenção. Assim como o cigarro foi vendido como inócuo para a saúde biológica por décadas, o mercado algoritmizado da atenção é imposto como inócuo para a saúde mental individual e coletiva hoje.

O efeito mais concreto percebido é a dispersão cognitiva individual – a falta de capacidade de concentração prolongada. Ao nos reunirmos como grupos vivemos em um estado de distração que se tornou endêmico, debilitando o potencial uso da inteligência coletiva nas organizações. Este ambiente acaba por destituir sociedades da qualidade de ponderação necessária para a vida coletiva harmônica. Neste cenário, qual o impulso que cada um de nós, como líderes em diferentes contextos, deve buscar?

Trajetória

A rede mundial de computadores conectados (também conhecida por internet) nasceu como um nexo de máquinas que permitia a troca de informações, algo verdadeiramente revolucionário. Porém este espírito de liberdade e trocas na aldeia global não sobreviveu à força da inércia – histórica e instintiva – de mercados oligopolistas. Alguns capítulos à frente nos encontramos no supermercado dos territórios das gigantes de tecnologia, os oligopólios da atenção.

Passamos horas sendo vigiados e seduzidos por algoritmos que tem como meta capturar nossa atenção. Estuda-se a resposta bioquímica hormonal para desenhar (user experience!) ferramentas que gerem dependência. Quantas doses de “likes” você precisa pra ficar feliz? Analisa-se uma enormidade de dados (big data!) para encontrar o melhor momento para oferecer um produto. Milhares de cérebros programando algoritmos que descubram e promovam as mensagens que geram maior engajamento (surpresa: são as mais raivosas e extremas). É um safári: passeamos pelas redes, aplicativos e sites como animais, com algoritmos-caçadores à espreita de nossa atenção, materializada em um clique, em um movimento de cursor, e, em breve, no simples movimento dos olhos. Uma verdadeira corrida do ouro em busca da atenção.

São modelos de negócios em que o bem mais desejado é a atenção de cada um de nós, e esta manipulação gera impactos – que são categorizados como “externalidades” pela lente mono-dimensional econômica. Neste caso, como veremos, são impactos degenerativos nos indivíduos, nos grupos e na sociedade.

Indivíduos

A busca da concentração e do foco sempre foram desafios no caminho de desenvolvimento humano, porém atualmente o contexto é completamente diferente, levando-nos aceleradamente a um estado de instabilidade mental cada vez mais intenso e permanente.

Para executarmos nossas ações diárias é necessário que estejamos atentos ao que estamos fazendo. Quanto mais atentos, mais produtivos e criativos somos. Ao mergulhar nossa intenção e atenção no que fazemos afinamos nosso equipamento (mente+corpo) com a ação que precisamos realizar, o que nos dispensa de levar a atenção para outros cantos. Este foco continuado traz uma verdadeira sensação plenitude.

Porém nosso ambiente e condicionamento atuais nos levam para o sentido oposto. Este condicionamento é moldado em nossas mentes a ferro e fogo pelo uso continuado de redes sociais e quetais. Sem consciência, permitimos que a lógica programada nos algoritmos imprima em nossos próprios circuitos neurais e bioquímicos a incapacidade de manter a atenção de maneira prolongada. Mal iniciamos uma tarefa e já somos interrompidos por algum chamariz, uma mensagem, uma notificação. Qualquer destas distrações imediatamente nos retira do campo em que estávamos executando a tarefa necessária naquele momento. Uma vez dispersada a atenção, nos tornamos presas fáceis da próxima distração. E assim se passam horas para a realização de uma tarefa que demoraria uma fração disto fosse feita de modo correto.

Há ainda a desculpa infantil e arrogante de que somos “multi-tarefas”. Isto simplesmente não é possível para nosso cérebro. Somos capazes de dedicar atenção apenas a um evento cognitivo por vez. O que sim sabemos fazer é muito rapidamente deslocar a atenção de um evento a outro, dando a sensação ilusória de simultaneidade e paralelismo. A realidade é que nunca estamos de fato alocando a atenção com o foco e tempo necessários para realizarmos as ações corretamente.

Existe aqui uma oportunidade de ouro para uma nova e necessária liderança. Uma liderança que ouve mais do que fala, que se dá conta de estar distraída, que exercita o foco em cada momento de seu dia, e que permanece sinceramente atenta a todos. Atuando desta maneira, pelo próprio exemplo de sua ação prática (e não suas palavras), esta liderança influencia a transformação e desenvolvimento das pessoas em todas as suas relações.

Grupos e Organizações

Adicionemos a este quadro o advento do trabalho remoto, em que ficamos rodeados por diferentes janelas (do computador claro) e telas. São tantas abas possíveis, tantas suculentas distrações – sim suculentas, observem a resposta química que o corpo produz com a possibilidade de abrir um aplicativo que mostrou uma sinal de notificação recebida – que se torna mais difícil permanecer “apenas” naquela tela de reunião do zoom, por exemplo.

Nestes ambientes o cacoete do comando e controle rapidamente ganha intensidade. É mais rápido o líder hierárquico dar uma resposta do que fazer perguntas – que ao final nem vão ser genuinamente respondidas já que nem todos conseguem de fato estar atentos ao tema em discussão.

O quadro se complica ainda mais se levarmos em consideração elementos subjetivos emocionais presentes em todos os encontros de seres humanos, e em especial em reuniões ditas “estratégicas” em que há muito a se perder no tabuleiro das relações de poder corporativo. Qualquer faísca emocional terá sua potência ampliada pela ausência de presença (física e cognitiva), pois o vínculo entre pessoas em um diálogo é nutrido pela atenção ali depositada; quanto mais frágil o vínculo, mais provável fica o escape para arroubos emocionais, em especial em situações de conflito latente ou explícito.

Qual a qualidade do trabalho produzido neste contexto? Como a trajetória de uma empresa será impactada, nos seus aspectos estratégicos e culturais, pela ineficácia continuada, objetiva e subjetiva, em seus processos decisórios?

Todos os eventos coletivos (reuniões, oficinas, discussões, comitês) que demandam a presença do grupo para deliberação, reflexão, compreensão ou decisão são vitalmente prejudicados. Minha experiência intensiva nestes anos de pandemia mostra uma rápida degeneração do músculo da inteligência coletiva, causada – não tenho dúvidas – em grande parte pela dispersão cognitiva. Lembremo-nos que organizações são sistemas complexos, em que as inter-relações são mais importantes que cada uma das partes, e onde a solução mais eficiente emerge das interações. Inteligência coletiva é a competência que a organização tem induzir a emergência de soluções, capturá-las e executá-las.

Há aqui uma segunda oportunidade de ouro para a liderança: viabilizar e nutrir a inteligência coletiva. Para isso é necessário desenhar de modo personalizado cada um dos processos coletivos que ocorrem no dia a dia, mantendo um cuidado permanente na forma como as interações ocorrem. É necessário estar 100% atento a cada uma das pessoas do grupo, notando sinais de afastamento ou dispersão. É necessário estimular e de fato fazer uso das contribuições nas diferentes perspectivas. É necessário ser mestre na arte de sintetizar o que emerge do grupo de maneira neutra para que se siga o próximo passo.

Sociedade

Ampliando um pouco mais o escopo, como se dá o impacto da dispersão cognitiva no desenvolvimento da sociedade como um todo? Como um ambiente complexo a sociedade caminha conforme a interação entre seus milhões de agentes produz a emergência de novos passos. As grandes empresas de tecnologia, as redes sociais, as empresas que utilizam mecanismos de furto de atenção, atuam de fato como mediadores das interações sociais, ou seja, geram probabilidade maior de um certo passo emergir. E este passo é – vejam só – determinado pela maior probabilidade de “engajamento” (cliques e compras) farejadas pelos algoritmos. E, como em uma novela dramática, situações de paz, acordo, harmonia, construção, busca do bem comum, não geram espectadores (engajamento). Discórdia, extremos emocionais, polarização (torcidas de futebol lembram algo?) geram muito engajamento. Ops, qual será o nosso próximo passo mesmo?

Este quadro é agravado pela dispersão cognitiva. Sem capacidade de foco para refletir e compreender uma questão difícil ou um dilema, individualmente e em grupo, nos deixamos distrair por opiniões rasas e fáceis.

Temos neste caso uma oportunidade de liderança cívica. Talvez possamos avaliar com novas perspectivas o nosso envolvimento e participação neste grande supermercado projetado para ser polarizado. Talvez possamos refletir sobre como consumimos e nos deixamos consumir por esta forma sutil e pervasiva de comércio. Possivelmente possamos reconquistar nossa auto-responsabilidade pelas ações, palavras e atos como parte de um tecido social que requer regeneração.

Mãos à obra

Cada um de nós, no contexto e amplitude em que tem influência, precisa ter a coragem tomar o impulso da ação. Como líder de si mesmo, líder organizacional ou líder cívico, não há tempo a perder. Mãos à boa e necessária obra.

Marcos Thiele

Fevereiro, 2022.

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