Não forme líderes!

O século XXI já tem mais de 20 anos, e continuamos moldando pessoas para liderar o século XX. Inicie um programa de capacitação de líderes e invariavelmente você notará que o modelo mental subjacente – a linha mestra que conduz a formação – tem caráter individualista, e é absolutamente antiquado e inapto para os tempos futuros.

A grande transição que vivemos é muito mais significativa do que a pasteurização trazida por qualquer acrônimo (por ex: VUCA, BANI). Fundamentalmente nossa época demonstra a extrapolação de limites sociais, ambientais e éticos por conta do modelo de desenvolvimento econômico construído por nós ao longo dos últimos 150 anos.

Do ponto de vista das organizações a implicação desta transição mais profunda tem duas vertentes:

  1. A necessidade de se integrar ao mundo em que opera, deixando de lado a postura desonesta de se considerar um ente econômico apartado da realidade (ambiental, social, pessoal), e passando a compreender o impacto gerado e recebido nesta realidade. Desta compreensão pode advir a construção de um propósito genuíno.
  2. A necessidade de transformar-se, de um mecanismo que busca eficiência, otimização e controle porque compreende a realidade como simples, para um organismo que busca adaptação, aprendizagem e co-criação por dar-se conta de que sua operação no mundo é complexa e incerta.

Líder na era do mecanismo

Observando esta transição na perspectiva da liderança, torna-se evidente que o modelo mental do século XX tem raízes no indivíduo que lidera, ou seja, é egoísta no sentido mais puro do termo. Esperava-se que, ao formar um número suficiente de indivíduos em uma organização, alguns iriam se sobressair a ponto de liderar toda a organização, e nestas pessoas se depositavam as esperanças de um futuro brilhante.

É a lógica da líder profeta, que sabe o caminho e guia seu rebanho. A lógica de que um indivíduo sozinho pode entender melhor a realidade, e por isso merece a reverência dos outros – o super-homem capa das revistas. A lógica da hierarquia, do comando e controle, da obediência. Uma lógica que permeou o crescimento das organizações no século passado, em uma época em que o mundo vivia mudanças menos frequentes, em que o trabalho não era tão fortemente associado a significado, em que as empresas se enxergavam separadas do próprio ambiente do qual extraiam seus resultados.

Liderança na era do organismo

O que os tempos futuros demandam da liderança tem uma natureza distinta. No momento em que uma organização lida com a incerteza, se reconhece como um tecido de relações humanas que extrapola suas fronteiras, e se dá conta de que não é possível compreender a complexidade de sua operação ou encontrar as soluções mais eficientes em nível individual, resta evidente que é fundamental aprender a trabalhar coletivamente para evoluir.

É a lógica do grupo que aprende a aprender (e não somente aprende). A lógica da resiliência de um time que se apóia. A lógica de construir processos de estratégia e inovação em que a solução emerge a partir da inteligência e sensibilidades presentes e da interação. A lógica de uma comunidade guiada por um propósito, que compartilha princípios, que produz de maneira madura decisões brilhantes em grupo.

Essência da transformação

Esta é uma transformação que somente pode ocorrer no nível organizacional quando flui pelos indivíduos. Precisamos ativar um processo de desenvolvimento que traga o coletivo tanto como princípio de construção (elaborando meios para a desenvolver a inteligência coletiva), como finalidade objetiva (os impactos gerados devem priorizar o ideal comum).

Daniel Burkhard, fundador da Adigo, em seu livro Nova Consciência: altruísmo e liberdade, traz os ingredientes para iniciar o processo de transformação do individual para o coletivo.

Na era do mecanismo tínhamos pessoas motivadas pelo individualismo, fechados em si mesmas, com um pensar desinteressado, um sentir apático, e um querer que usurpa.

Na era do organismo precisaremos de pessoas motivadas pelo bem comum, que se abram para se conectar com outros, tendo um pensar interessado por entender o ponto de vista dos outros, um sentir empático que busca vivenciar o sentimento dos outros, e um querer que interaja com os talentos dos outros.

No fundo as organizações são instituições de relações sociais. Se considerarmos esta essência com o devido cuidado perceberemos que “os outros” talvez sejam a chave para nosso desenvolvimento.

Conclusão

O que se espera da liderança é que transforme a própria organização. Uma empresa viva se adapta e evolui por conta desta característica, pois de outro modo se enrijecerá e perderá relevância. Assim, não forme líderes. Desenvolva a liderança como atributo coletivo dos times. A longo prazo esta será a transformação capaz de resgatar a dignidade humana nas organizações.

Marcos Thiele

ADIGO Desenvolvimento

Novembro, 2021.

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