A construção de um legado em uma família empresária é um desafio constante e contínuo. Requer um olhar mais amplo e perspicaz para que a obra seja autêntica e perene, evitando que se torne um enfeite, um bibelô frágil, um livro com conteúdo questionável, ou uma fantasia desconectada da realidade.
Para garantir que o legado se conecte com o presente e sirva de inspiração para o futuro, é preciso ter a coragem de olhar para o que se viveu sob três ângulos, o que permite percorrer caminhos mais saudáveis:
- O que devemos honrar dessa história (as vivências do que foi transmitido).
- O que precisa ser ressignificado (vendo por outra ótica e revendo os impactos).
- O que precisa ser redimido nessa história (o confronto com aspectos difíceis).
Preparação: O Escopo Preventivo da Pesquisa
Um caminho saudável de início é não se conformar com um único ponto de vista. Deve-se buscar ativamente as perspectivas de múltiplas pessoas que vivenciaram aquelas histórias. Essa estratégia ampla e transversal é importante para evitar ser refém de pontos de vista distorcidos e mitigar simpatias, antipatias, preconceitos e tendências de uma época ou geração.
Mapear diversos stakeholders e procurar pessoas que viveram o contexto por diferentes perspectivas auxilia na compreensão da realidade com mais precisão.
Além de ampliar o espectro de pessoas, é crucial considerar o contexto histórico:
- O que se manifestava no mundo, no país, na cidade e na região?
- O que estava ocorrendo no mundo e o que se valorizava naquele momento da humanidade?
- Quais eram as linhas de tolerância social apresentadas na época?
Esse exercício ajuda a evitar o risco de avaliar o passado com o nível de consciência do momento atual, o que poderia levar a julgamentos equivocados. É fundamental buscar a realidade, suspendendo conceitos atuais para não emitir opiniões fora de época.
As Três Lentes da Construção do Legado
Após aplicar o escopo preventivo de pesquisa, é possível adentrar o conteúdo dos fatos e esmiuçar a história pormenorizadamente, confrontando-se com as três lentes.
1. Honrar
É o momento de encontrar os elementos que, como família empresária, não se pode abrir mão e realmente se deve honrar. Isso ocorre quando as pessoas que antecederam souberam lidar com os temas de forma sábia e verdadeira, considerando o contexto e os desafios que a vida lhes ofereceu.
2. Ressignificar
Nesta fase, a família se defronta com histórias mal contadas ou realidades dolorosas que não puderam ser enfrentadas na época e foram “alteradas um pouquinho” para que pudessem conviver com elas.
- Oportunidade de Aprendizado: As histórias dolorosas podem agora ser ressignificadas, olhando para os aprendizados e como esse aprendizado se metamorfoseou ao longo dos anos, em vez de focar na dor.
- Coerência e Autenticidade: Trazer à consciência o que foi aprendido permite que a família seja mais autêntica e coerente, especialmente com as futuras gerações, que sustentarão o legado.
- Reparos e Sustentação: Não se pode desconsiderar que surgirão medos, receios e traumas, mas se não forem tratados de forma genuína, a capacidade coletiva de lidar com isso no futuro será comprometida. Identificar rachaduras ou pequenos vazamentos e providenciar reparos minimiza danos irreparáveis e ajuda na sustentação do futuro.
3. Redimir
É o ambiente mais profundo das histórias, tratando dos aspectos e contextos familiares ou de negócios que geram constrangimento e que muitas vezes se prefere esquecer, embora se saiba que o esquecimento não é possível.
- Necessidade de Reequilíbrio: Famílias podem se deparar com cenários de exploração, apropriações e disputas que prejudicaram outras partes. Se isso não for redimido conscientemente, haverá sempre uma perda de energia. Inconscientemente, o sistema procurará reequilíbrio, manifestando-se em enrijecimento, burocracia excessiva ou conflitos.
- Soluções Reparadoras: É necessário coragem para construir soluções reparadoras afirmativas que garantam que a dor, o desequilíbrio ou os traumas vividos não sejam um sacrifício em vão.
- Sistema Amplo: A redenção exige olhar para um sistema mais amplo, que vai além das pessoas da família e da empresa, incluindo toda a cadeia produtiva, parceiros, clientes e diversos stakeholders que possam ter sido “vítimas” de exploração e desequilíbrio social.
- Caminho Pró-ativo: Embora a exploração possa ter sido fruto de uma época, a família empresária pode escolher se colocar de forma pró-ativa em um caminho de redenção ou reparação, criando novos fluxos de saúde social e prosperidade para o sistema, revitalizando sua atuação no mundo.
Conclusão: A Escolha do Legado
A sustentação de um legado dessa envergadura é uma questão de escolha, abertura a novas possibilidades e coragem para lidar com uma realidade que,
por vezes, é dura e requer ações concretas de acordo com a natureza do que foi herdado.
Não se pode rejeitar, negar ou negligenciar o que se recebe dos que nos antecederam, mas é possível escolher conscientemente o que será deixado, metamorfoseado, para os que virão.
A disposição é que o legado para o futuro seja o mais próximo daquilo que se quer honrar, e que as próximas gerações tenham menos trabalho de ressignificar e redimir do que a geração atual, ainda que saibamos que essa meta será uma busca constante. No caminhar da humanidade vamos aprimorando nossa perspectiva e consciência, vamos tomando contato com o que ainda não conhecíamos e com isso nossa compreensão muda. Como ao subir em uma montanha, conforme se chega a um pouco mais adiante se observam pontos que antes não eram visualizados, nisso mora a sabedoria em lidar com o aprimoramento e sustentação do legado com o ingrediente do deslocamento do tempo, podemos nesse caminhar redimir, ressignificar honrando aqueles que nos antecederam sabendo que fizeram o melhor que era possível, dadas as circunstâncias, saibamos que no futuro alguém estará fazendo isso por nós.
Rodrigo Bergami Rodrigues
Sócio da ADIGO Desenvolvimento. Consultor Organizacional e Coach Financeiro, especialista em Governança, Gestão com autonomia e Modelo de Negócios. Construiu sua carreira executiva em empresas de grande e médio porte nacionais e internacionais, atuando desde 1999 nas áreas de Operações , Governança e Redesenho Sustentáveis de Negócios nas Lojas Renner e Cia Hering. Liderou projetos de reestruturação e reformulação em âmbito nacional. Formado em Administração de Empresas pela FECAP, com MBA em Gestão pela FGV-SP, com especialização em Conselho de Administração pela FDC. Possui também formações em coaching pela Escola de Coaching do EcoSocial, Mediação de Conflitos pelo IMO/EcoSocial, Multiplicador do Sistema B, Consultores pela ADIGO, Aprofundamento da Liderança pela ADIGO e Coaching e Consultor Econômico Financeiro pela Economia Viva.
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