A transferência do Legado Cultural vai muito além da transferência de riqueza e patrimônio!

Com as questões que envolvem mudanças tributárias no Brasil e um ciclo de passagem de bastão de uma geração que muito produziu e construiu na segunda metade do século XX, temos acompanhado, neste primeiro quarto de século XXI, um incremento nos processos de sucessão das empresas e famílias empresárias. Nesse fluxo, as holdings e o planejamento tributário viraram temas de primeira ordem e, com eles, a transferência patrimonial, com o objetivo de tornar o processo mais estruturado e seguro para as futuras gerações.

Essa parte do processo sucessório é fundamental e transmite segurança para múltiplas partes. No entanto, ela não se apresenta de forma suficiente quando se busca uma sucessão que vá além da transferência de recursos.

Quando o objetivo da sucessão é mais amplo e almeja a longevidade, tanto para família como seus negócios com uma perspectiva de múltiplas gerações, precisamos direcionar as premissas do processo de sucessão nessa direção, olhando de forma mais ampla e sistêmica para a transferência de propósito, cultura, legado e impacto social.

Neste contexto, começa-se a ter uma perspectiva mais ampla e distinta. Normalmente, quem se preocupa apenas com a primeira etapa, citada anteriormente, consegue garantir para uma ou algumas gerações a transferência de riqueza ou patrimônio. Contudo, esse processo tende a uma desvitalização com o passar dos tempos, sendo observada uma estagnação ou até um encolhimento do patrimônio ao longo dos anos. É como se energeticamente a vitalidade se desconecta-se da riqueza: onde as pessoas que assumem a “responsabilidade” por nutri-la vivenciam esse processo com certa frieza e distanciamento.
Contemplar apenas uma dimensão da sucessão, a patrimonial, estabelece uma inércia que distancia as gerações sucessoras da potência geradora, deixando-as afastadas das fontes capazes de renovar e nutrir novos recursos com significado.

Com isso, aquilo que trazia vitalidade e potência para o sistema econômico familiar passa a esvair-se, como se “escorresse pelos dedos das mãos”. Nesse fluxo, os envolvidos parecem não saber como conter a inércia que se sobrepõe aos recursos, perdendo a conexão com a essência geradora de valor para promover resposta às necessidades do mundo contemporâneo.

  • Como eu contribuo efetivamente?
  • A serviço do que estou ou estamos?
  • Quais as minhas responsabilidades para que as coisas retomem um caminho de abundância e prosperidade?
  • Qual a minha contribuição efetiva para o futuro?

Ao olharem para questões como as citadas anteriormente, as gerações vindouras muitas vezes parecem não encontrar respostas contundentes e significativas.

Por outro lado, quem se propõe a olhar para o tema da sucessão de forma mais ampla e transversal, passa a reconhecer que além de uma transferência de riquezas, de recursos financeiros e patrimoniais, esse processo requer uma transferência de valores familiares com significado pulsante.

É nessa hora que o fluxo fica mais intenso e complexo, a começar pela responsabilidade.

Quando tratamos de transferência de recursos financeiros ou bens, percebemos que um processo dessa natureza pode ser terceirizado. É possível delegá-lo contratando profissionais tecnicamente qualificados para estruturar os contratos, alinhar os fluxos contábeis e gerir os ativos disponíveis.

Por outro lado, quando estamos diante da transmissão de valores familiares, de visão de mundo e perspectiva de futuro, a dimensão da jornada se amplia a ponto de não se poder correr o risco de terceirizá-la. Afinal, passa -se a lidar com aspectos e dimensões íntimas daqueles que nos antecederam e daqueles que nos sucederão.

Quando estamos desenvolvendo a transferência cultural, de valores e legado, necessariamente precisamos desenvolver processos e caminhos estruturados internamente, envolvendo as diversas gerações, tendo todas se corresponsabilizando pela depuração e estruturação desse processo, dedicando tempo e esforços para respondermos algumas perguntas imprescindíveis:

  • O que a família acredita?
  • Por que construímos o que construímos?
  • O que se buscava verdadeiramente?
  • O que se espera que sobreviva, quando as gerações atuais não estiverem mais aqui?
  • Quais os impactos que podem ser deixados para a sociedade agora que estamos com outras perspectivas e possibilidades?

Essa conversa não é delegável e precisa de dedicação, não se dará em um encontro anual, mas vai requerer diálogo, conversa, compreensão e disposição para se chegar a lugares comuns com significado, é um caminho evolutivo que precisa estar na pauta continuamente.

Abrir essas duas frentes sucessórias permitirá que as famílias empresárias construam riqueza com valor e possam transferir dinheiro com motivo – propósito. Esses ingredientes permitirão que as instituições atravessem gerações.

Para que isso se estabeleça de forma estruturada e saudável, a implementação do Conselho de Família tem se mostrado um caminho relevante.

Com essa implementação, cria-se a oportunidade para que membros da família não ligados diretamente à gestão (como os Conselhos de Acionistas e de Administração) comecem a participar de forma mais ativa.

A falta dessa institucionalização pode gerar um afastamento de muitas pessoas altamente qualificadas e capazes, não por falta de afeto, mas por falta de função, de um lugar concreto de atuação.

Junto ao Conselho de Família passamos a estabelecer Comitês que têm como prioridade cuidar do desenvolvimento da família, o que gera um fluxo direto para os negócios da família empresária.

Não existe crescimento organizacional saudável sem o desenvolvimento das pessoas que influenciam e impactam essa estrutura. Na mesma proporção, quando os membros de uma família empresária não se desenvolvem para além dos ganhos financeiros, a perspectiva se limita e o potencial coletivo para o futuro começa a ficar comprometido.

Importante destacar aqui que o desenvolvimento tratado no parágrafo anterior vai muito além de adquirir competência técnicas e capacidades curriculares, estamos provocando um olhar para o desenvolvimento da visão de mundo dos seres humanos, viabilizando uma atuação integrada com as demandas da sociedade na qual estamos inseridos.

Os comitês podem tratar de assuntos como os encontros anuais, a relação dos familiares com os negócios da família, identificar as lacunas formativas, minimizar e mitigar conflitos, perenizar a família e principalmente convidar as gerações atuais e futuras a pensar o significado do legado em movimento:

Qual o legado de cada geração?

Projetos e iniciativas relevantes podem sair dessa pergunta e nesse fluxo, espaços de atuação se abrirão para uma participação ativa pela família, ainda que não seja diretamente nos negócios.

Caminhos como esse estão diretamente ligados ao que a família empresária valoriza e: qual a transformação que ela quer ver no mundo?

Aqui cabe destacar que o conceito de “Família empresária” busca diferenciar a maturidade e a dimensão de uma uma família que em sua origem já foi detentora de uma empresa de família, mas agora requer ampliar suas perspectivas.

Ao explorarmos o termo “Família Empresária”, fazemos um convite provocativo para que se olhe para dimensões que vão além do enriquecimento e da manutenção dos negócios. Estimula-se o desenvolvimento de uma percepção do papel de impacto social que uma família pode exercer em suas escolhas conjuntas de evolução e transformação da sociedade.

Para isso ocorrer de forma consistente e sustentável, faz-se necessário criar condições na governança familiar para impactar os negócios e a sociedade positivamente. Isso envolve estabelecer caminhos integrativos para capacitar os envolvidos de forma ampla, tendo como norte os valores familiares, permitindo que todos evoluam e promovam o desenvolvimento dos demais integrantes em temas estratégicos e operacionais, sem se distanciar da cultura da família.

Cabe destacar que nesse caminhar conjunto, a cultura familiar vai se nutrindo e também se metamorfoseando, os significados vão se refinando e se aprimorando, e por vezes, sonhos que não eram possíveis, passam a ser novos horizontes.

Há um detalhe fundamental: o Conselho de Família precisa ajudar as novas gerações a ampliar seu escopo, equilibrando o olhar interno com o externo. A partir dessa nutrição externa, conecta-se cada vez mais às necessidades do mundo contemporâneo com base no que há de mais essencial na família e em seus negócios — como um transbordamento contínuo em que as águas fluem e retornam renovadas.

Trabalhar com as empresas familiares o caminho de desenvolvimento para se tornarem famílias empresárias, com uma perspectiva de perenidade multigeracional de longo prazo, requer o constante amadurecimento e a exploração do propósito e do significado da riqueza. Entender esse papel social exige a assunção de responsabilidades compartilhadas; negligenciá-las tende a produzir distanciamento, separação e enfraquecimento sistêmico.

Integrar é a perspectiva fortalecedora e transformadora que precisa começar pela instância de governança mais ampla, responsável por zelar pela cultura familiar. Essa é a sucessão mais relevante — e muitas vezes invisibilizada —, sem a qual o futuro não se estabelece de forma sustentável.

Esse caminho mais amplo e profundo é o que desafia, mas se for corajosamente enfrentado, com calma e antecedência, pode proporcionar um legado que vai muito além dos horizontes que se almejou.
Isso é deixar um legado!

Rodrigo Bergami - Adigo ConsultoriaRodrigo Bergami Rodrigues
Sócio da ADIGO Desenvolvimento. Consultor Organizacional e Coach Financeiro, especialista em Governança, Gestão com autonomia e Modelo de Negócios. Construiu sua carreira executiva em empresas de grande e médio porte nacionais e internacionais, atuando desde 1999 nas áreas de Operações , Governança e Redesenho Sustentáveis de Negócios nas Lojas Renner e Cia Hering. Liderou projetos de reestruturação e reformulação em âmbito nacional. Formado em Administração de Empresas pela FECAP, com MBA em Gestão pela FGV-SP, com especialização em Conselho de Administração pela FDC. Possui também formações em coaching pela Escola de Coaching do EcoSocial, Mediação de Conflitos pelo IMO/EcoSocial, Multiplicador do Sistema B, Consultores pela ADIGO, Aprofundamento da Liderança pela ADIGO e Coaching e Consultor Econômico Financeiro pela Economia Viva.
Envie um e-mail para Rodrigo Bergami Rodrigues.

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